Leite de sangue

O pôster original: Vento maligno e lua fria Visualizações: 535 Respostas: 2 Publicado em: 2012-10-14 21:18:06
Ninguém sabia de onde elas vinham; a mulher sem nome e a criança se tornaram um mistério na vila do rio Huai. Durante o dia, a mulher sempre usava uma longa vara de bambu para vasculhar o rio, e à noite sentava-se sozinha à beira do rio ou no barranco, olhando para a água sem pensar em nada.

A mulher morava no Templo do Deus do Rio, na extremidade oeste da vila, perto do rio. Com o tempo, o templo perdeu a manutenção e deixou de ser um templo, parecendo totalmente decadente. Cinco anos atrás, um soldado esteve morando ali, supostamente para fazer estudos hidrológicos e coletar informações. Em 1998, durante o alívio das inundações, o soldado morreu ali, mas ninguém conseguia lembrar seu nome; seis meses depois, a mulher chegou. Ninguém na vila pensou que a mulher tivesse qualquer ligação com aquele soldado.

As mulheres da vila sentiam pena dela e a compadeciam; por ela morar no antigo templo, ninguém dizia nada, e a mulher, de certa forma, sempre se adaptava às outras mulheres. Os homens da vila achavam a mulher um pouco estranha, mas não apresentavam oposição, e assim ela foi vivendo naturalmente ali.

O inesperado foi que, menos de um ano depois, a mulher de repente teve um filho. Aos olhos da população rural, ela era uma mulher sem homem; e o que significa uma mulher sem homem ter um filho? A compaixão e pena das mulheres da vila logo se transformaram em insultos, enquanto olhavam de perto seus próprios maridos. Os homens, embora não ousassem falar, frequentemente desejavam cerrar os punhos e espancar aquele sujeito imoral e sujo até ficar em pedaços.

Um dia, dois dias. Um mês, dois meses. A mulher ainda morava no velho templo, suportando os insultos, carregando a criança, descalça, com o peito exposto, continuando todos os dias, seriamente, a vasculhar o rio com a vara de bambu.

Naquela noite, não havia diferença das noites anteriores. A mulher e o filho ainda dormiam, quando o pequeno templo desmoronou de repente sob uma forte chuva.

Em um instante, a mulher e a criança caíram como num vale sem barreiras, caíram nas ruínas escuras e infinitas. Num misto de pavor e aflição, a mulher usou toda a sua força vital para proteger a criança. Felizmente, nenhum dos dois morreu, mas ficaram presos sob os escombros caídos. Na noite tempestuosa, os pedidos de socorro da mulher soavam fracos como o zumbido de um mosquito. Na fome e no frio, a mulher apertou a criança contra o peito, com medo de que outro queda aterrorizante assustasse o filho.Mas a criança ainda chorava desesperadamente no colo da mulher. A mulher, assustada, abriu a roupa e levou o mamilo rosado até a boca da criança. A criança abriu a boquinha cor-de-rosa e sugou imediatamente, como se raízes estivessem absorvendo o leite da terra. Vendo a criança se alimentar satisfeita, a mulher finalmente percebeu que a criança estava com fome.

Depois de um dia e uma noite sem beber uma gota d'água, o leite da mulher se tornou cada vez mais escasso. A escuridão envolvia a mãe e o filho desamparados, enquanto o desespero devorava lentamente a alma da mulher.

Três dias e três noites depois, a criança só podia mamar nos seios murchos da mulher e não conseguia mais extrair uma gota de leite, tão fraca que nem tinha forças para chorar. A escuridão e a sufocação enfraqueciam a luz no coração da mulher, mas a luz ainda não se apagava completamente, consumindo sua última gota de energia. Tocando o rostinho da criança, a mulher lutava, sem saber de onde vinha sua força, cavando desesperadamente nos escombros à sua frente, na esperança de encontrar algo que pudesse alimentar a criança.

De repente, os dedos da mulher tocaram um prego, um prego cravado com uma cunha de madeira. O prego cortou o delicado dedo da mulher, e uma gota de sangue jorrou. A mulher tremeu intensamente, e quase sem hesitar, perfurou o próprio dedo indicador com o prego e colocou na boca da criança. O sangue vermelho escorria, e mesmo na escuridão a mulher não conseguia ver a criança, mas podia sentir que a vida da criança estava se fortalecendo pouco a pouco.

Uma semana depois, os moradores da vila, ao limpar os escombros, lembraram-se da mulher e da criança. Quando os moradores abriram os escombros e encontraram a mulher e a criança, uma cena deixou todos chocados: a criança ainda estava viva, chupando um dedo da mulher. A mulher havia morrido silenciosamente, o rosto pálido como algodão. Ao pegarem a criança, os moradores perceberam, surpresos, que cada ponta de dedo da mulher tinha um pequeno furo, o sangue das pontas havia coagulado e escurecido. Os dedos estavam numa tonalidade cinza horrível, mas no rosto da mulher havia um leve sorriso de satisfação.

No peito da mulher estava escondida uma foto de um soldado.

Os moradores que estavam entre os escombros, estavam todos com lágrimas escorrendo pelo rosto.
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